as posições das coisas

“Mais adiante havia o depósito de garrafas, o caixote de madeira, o livro apodrecido de contadoria, um pano sujo e de novo a laranja. O olhar não era descritivo, eram descritivas as posições das coisas.
Não, o que estava no quintal não era ornamento. Alguma coisa desconhecida tomara por um instante a forma desta posição. tudo isso constituía o sistema de defesa da cidade.
As coisas pareciam só desejar: aparecer – e nada mais. ‘Eu vejo’ – era apenas o que sepodia dizer. (…)

Estava olhando as coisas que não se podem dizer. (…)

Mesmo o erro era uma descoberta. Errar fazia-a encontrar a outra face dos objetos e tocar-lhes o lado empoeirado. (…)

Faltava a parte mais difícil da casa: a sala de visitas, praça de armas.
Onde cada coisa esperta existia como para que outras não fossem vistas? tal o grande sistema de defesa. (…)

As coisas eram difíceis porque, se se explicassem, não teriam passado de incompreensíveis a compreensíveis, mas de uma natureza a outra. Somente o olhar não as alterava.”

A Cidade Sitiada. Clarice Lispector

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