Entrevista para o site Coordenadoria de Cultura da Casper Líbero

Como leciono Sociologia para cursos de Comunicação, desenvolvi algumas reflexões sobre o significado dessa experiência, que gostaria de compartilhar. Este é um trecho de uma entrevista que se encontra página da Coordenadoria de Cultura da Casper Líbero (http://www.facasper.com.br/cultura/site/entrevistas.php?id=158)

“Quais são suas principais referências teóricas e como é que você escolheu isso?

Comecei a ler Bourdieu para resolver um problema que tive quando falava de sindicalismo, as classes sociais. Já havia tido contato com a sua obra na faculdade, mas “não bateu”. Quando o li pela segunda vez, me identifiquei mais, entendi que havia alguma coisa diferente naquela teoria. Era um modo de trabalhar com o mundo social que não tinha visto em outros autores, e acabei influenciado por ele. Me fez ver um sentido para a sociologia.

Houve um momento em que eu entendia, sabia o que era sociologia, o que falar sobre ela, mas faltava um sentido. A sociologia ganhou vida. Se isso é sociologia, é o que quero fazer – acho que é um projeto que vale a pena. Outros autores são interessantes[e importantes], mas é com esse projeto que me identifico.

Em que exatamente a sociologia auxilia o estudante de comunicação na formação específica dele?

Não penso em ensinar sociologia para formar sociólogo. O aluno está aqui para ser formado como publicitário, relações públicas, radialista ou jornalista. O objetivo é que a sociologia apareça no seu trabalho, oriente-o quando olhar para as coisas, ver a sociologia presente.

O estudo o obriga a dominar a teoria, e começo com teoria, mas o objetivo principal é fazer com que esses conceitos se incorporem no seu trabalho na área. É comum alunos fazerem um trabalho de sociologia e adotarem uma postura correta do ponto de vista sociológico. Mas em seu trabalho [profissional] na área não fazem ligação nenhuma.

É necessário incorporar o raciocínio sociológico a sua área, porque um jornalista, por exemplo, não escreve um texto sociológico, mas jornalístico. Mas ser um texto jornalístico não impede que tenha sociologia. Há muitos exemplos de jornalistas que têm uma sensibilidade sociológica impressionante. O que é importante passar para os alunos é essa sensibilidade, esse olhar sociológico pra fazer um bom trabalho na sua área. Caso ele tenha vocação para pesquisa em comunicação, sugiro que ele procure o Centro Interdisciplinar de Pesquisa para uma iniciação científica.

Como você faz pra familiarizar o estudante com a teoria sociológica?

Tento mostrar como aparece no dia-a-dia. Pego desenhos animados, já que desde cedo a gente tem contato com isso, e mostro que se o olhar for posicionado sociologicamente, são vistas várias coisas, há uma relação de comunidade, sociedade, poder simbólico, hierarquia e autoridade, mesmo numa coisa que as pessoas consideraram banal.

Numa música, o compositor tem umas quatro estrofes pra desenvolver uma idéia e traduzir algum personagem que ele escolheu pra falar ou algum acontecimento. Pessoas sensíveis com um olhar sociológico fazem isso com a música, literatura, cinema… Mostro casos em que se o aluno estiver orientado sociologicamente, vai enriquecer sua interpretação. Sem um fundamento sociológico, não dá pra entender o mundo.

Os autores de novelas, quando pensam os personagens, escolhem se é branco ou negro, mulher ou homem, se vive ou não um drama [específico]. Sem sociologia não dá para entender essas escolhas. Até para você transgredir.

É importante mostrar isso teoricamente. Mas mostro na prática, porque o termo teoria é entendido, normalmente, de um modo equivocado. Teoria é fazer ver coisas. Se ela não é capaz de fazer com que você veja “coisas” no mundo em que vive, você não entendeu a teoria. Se ela não cumpre essa função, há alguma coisa errada, ou com a teoria, ou com quem faz uso dela. Os problemas podem ser de quem está explicando, de quem não está entendo o que lê ou ela não revela o que deveria [ou propõe] revelar.

Quais são as principais dificuldades em fazer o aluno entender as teorias? Tem alguma coisa que trava?

Entre uma discussão teórica e uma questão prática é preciso fazer uma mediação. Não é mecânica a relação entre o pensamento e a realidade, é mediada.

A teoria Marxista, por exemplo, não é aplicada mecanicamente à realidade. Ela orienta seu olhar [indica uma postura, um método]. A dificuldade é mostrar que uma teoria não deve ser introduzida violentamente na realidade. Ela orienta o olhar, é uma direção.

Em aula, tento esclarecer isso: o que é uma teoria e como ela é usada. Existem as mediações nesse processo, ela não é a realidade. A teoria é um instrumento de “aproximação” [uma “construção”, de certa forma] da realidade, que é complexa. É preciso deixar claro isso, ou as pessoas pegam a teoria e ficam tentando encaixar a realidade dentro dela, e não é isso.

Ela orienta o olhar, as perguntas a serem feitas e os problemas a investigar, nada mais [e isso não é pouco].

Existe relação entre a sociologia e alguma teoria da comunicação? Onde a sociologia discute as teorias da comunicação?

É necessário entender que não há uma teoria da comunicação sem uma teoria da sociedade. E não há uma teoria da sociedade que não deva levar em conta a comunicação, porque é um fator fundamental da existência de uma sociedade.

O fundamento da comunicação é um fundamento sociológico. Temos que pensar a comunicação como condição da existência da sociedade. Se não houvesse essa troca simbólica, seria impossível haver sociedade. E ao mesmo tempo lembrar que a comunicação não existe isolada das instituições que se formam [com ela]. Tentar vincular essas coisas. Colocar a questão da comunicação, buscar os fundamentos sociais da comunicação.

Eu sei que a semiologia também procura entender esse processo [complexo] de troca mediada por signos e tal. E a sociologia entende-o assim: esses signos não são neutros, tem uma hierarquia. E quando alguém usa um signo numa certa posição, aquilo tem um efeito. Se não está naquela posição, não tem o efeito [esperado].

Então você tem que mostrar que condições sociais são necessárias pra que a comunicação tenha um resultado ou não [o que aproxima a Sociologia da Pragmática].

A sociologia entra mais ou menos aí. Porque o fundamento do êxito da comunicação não está nela, está nas condições sociais que fazem com que o discurso seja ouvido, seja obedecido, seja transformador. Não apenas o que se fala, mas quem fala, como fala, quando fala, com que autoridade – isso é um fundamento sociológico, não está no discurso a resposta. Está no “ambiente”[contexto/mercado simbólico], que faz com que quando você pronuncie alguma coisa, algo aconteça.”

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