Era uma bola Dente de Leite…

Era Dia das Crianças. Certa expectativa rondava o imaginário e o espaço público infanto-juvenil, a rua. Alguém haveria de ganhar uma bola, esse objeto coletivo por natureza, por meio do qual se constituem misteriosas relações de conhecimento e poder. Que o diga seu dono. Bola que nos ensina a brutalidade, o domínio, a paixão, o companheirismo, a ira dos vizinhos ou dos jogadores da rua de cima ou de baixo, a consciência cívica e o palavrão.
O dono da bola é um ser à parte. É escalação garantida, submetida a complexo processo de negociação que vai posicioná-lo nas regiões mais “modestas” do gramado. No nosso caso, era um “campinho de terra”, mas muitas vezes poderia ser o terror dos joelhos, coxas, cotovelos e mãos: o “raspadão” (terra em estado bruto).
Os campos são todos iguais, filosoficamente falando (seja lá o que for que isso signifique). Trata-se de uma estranha topografia traçada pelas posições e seus titulares. Um verdadeiro jogo simbólico, distribuindo a divisão de classes pelo gramado em função de sua classe dominante: os craques. Aqueles que muito cedo fazem questão de nos mostrar a noção dos nossos limites. E existem craques com diversos graus de craqueza, se é que me entendem…
A rua e o jogo são uma aula de Antropologia. O que diriam os deuses astronautas sobre o alinhamento de dois pedaços de tijolos com três passos de distância entre eles. Ou a combinação de três paus mais ou menos compridos formando uma espécie de |__| invertido. Pois, em nosso imaginário tropical, antropofágico e infantil, ele representa um universo, um mito. Uma força oculta é mobilizada diante dessas formas. As tardes entediadas ganham um sentido, mobilizam sonhos, caneladas e poeira. Troca de passes, lançamentos e chutes que mobilizam o cair da noite.
Tive a sorte de ter um campinho de terra em frente da minha casa, às margens de um córrego (poluído). Essas afinidades entre natureza e cultura em uma partida contra o “progresso”.
Mas, apesar de tudo, o campinho é a primeira conquista do povo. Campo com trave e tudo é um projeto de civilização. A parte superior dessa maravilhosa invenção tem o nome científico de “travessão” e era pregada, em cada ponta, a duas fortes colunas de estrutura eucalíptica. Para dar maior segurança (acho que deve existir certo espírito de CIPA infantil), pregava-se as pontas das traves ao travessão com latas de óleo. As latas eram abertas e pregadas nas pontas unindo os elementos em uma verdadeira sintaxe futebolística. Tudo isso pode parecer irrelevante, simples detalhes técnicos para o leitor desatento, mas será de fundamental importância nessa história.
Era dia das Crianças, como disse. Nossas esperanças estavam confirmadas. Alguém chegava … (Um minuto! Em tempos de mídia imaginem essa cena em câmera lenta ) alguém chegava com uma bola dente de leite embaixo do braço… atravessava a rua… e… algum engraçadinho já dava-lhe um tapa liberando-a de seu dono para uma espécie de orgia imaginária infantil.
A chegada de uma bola em alguns campinhos é um momento anárquico. Alguns tentam organizar diversos gêneros futebolísticos com o número de jogadores disponíveis. Com dois, com três, com qualquer número par acima disso que dê para dividir um time. O duro é a obtenção do consenso, a escolha dos companheiros e o início da partida. Às vezes, a “panela” já está formada, às vezes ninguém toma a iniciativa do par ou ímpar, às vezes outros assuntos entram na agenda vespertina (meninas!).
É engraçado o processo de identificação dos companheiros ou do adversário no futebol. Sem camisa/com camisa ou a memória mesmo. Nunca é colocada em questão os com keds e os sem keds. E por falar nisso, keds é o nome genérico do “buti”, o que quer dizer tênis na língua oficial infantil do século passado. Entre esses objetos mobilizados para a prática futebolística, destaco o kichute (todos com k porque é muito mais chique). Uma bela peça de borracha e lona que dava ao seu portador poderes sobrenaturais no raspadão: aderência, velocidade, direção, precisão.
Precisão e direção são fundamentais quando se joga com uma bola dente-de-leite, pois ela desconhece essas qualidades. Pode-se dizer que tem vida própria, uma vontade própria de gol. Não adianta beijá-la, acariciá-la no chão, fazer montinho. Se há um destino, ele deve ser parecido com a trajetória de uma bola dente de leite.
Raramente, os meninos da rua tinham contato com uma espécie de “upgrade” da dente de leite. Preparem-se, caros leitores, pois estou falando da bola de capotão nº 5. Não vou tecer comentários sobre as qualidades que fazem da nº 5 uma bola diferente. Essa bola só aparecia quando, abnegadamente, produzia-se um exemplo de solidariedade de classe: a vaquinha.
Mas o mundo infantil é complexo e um problema novo surgia: a dificuldade que toda criança tem com o socialismo. Quebrava-se o maior pau para saber na casa de quem ficaria a bola. Alguns até a levavam para jogar com os primos em outros campos, o que caracterizava uma extrema falta de ética.
Bem… era dia das crianças… alguém ganhou uma bola…e finalmente, a mão invisível do futebol atuou na formação de 6 duplas. Assim, uma dupla dava quatro chutes, enquanto outra ficava no gol. Depois, revezavam-se. Quem conseguisse marcar mais gols no outro, disputava com outra dupla até que todos pudessem jogar. Com rebatida ou sem rebatida, com a possibilidade de voltar o chute, tudo dependia de uma complexa retórica e disponibilidade do uso da força física. É incrível, mas tudo funcionava sem um juiz! Algumas vezes, apelava-se aos amigos ou instaurava-se uma regra de maioria que nem sempre era seguida.
Bem… crianças, campo, duplas e tudo pronto para a estréia oficial da estrela do dia: a bola dente de leite (de plástico, branca com a simulação de alguns “gomos” pintados em preto e escrito, é claro: Dente de Leite). Tudo pronto. Primeira disputa, duas duplas preparam-se para o confronto. O esquema tático nesse momento é irrelevante e o que conta é a raça e o coração. Torcida, pressão das outras duplas, carros passando ao lado da “Arena”, mães chamando para ir ao Bar (buscar pão) ou tomar banho, enfim, pressão total.
É dado o primeiro chute oficial da série de partidas do dia. Com ele, tem início uma série de histórias a serem contadas aos filhos na velhice. Bem… o chute, então, foi dado.
Um chute. Com uma bola dente de leite. Como disse, o resultado disso é um mistério, um aprendizado à parte para os meninos da rua. Mas, espetacularmente, um dos membros da dupla que estava no gol, em um gesto reflexo, ergue o braço…(não quero abusar do recurso à câmera lenta, mas, se vocês estão acompanhando o que escrevi até agora, serão capazes de entender minha decisão). Peço ao leitor que reveja o lance em sua mente… a bola vindo… os olhares em sua direção… a bola bate na mão do defensor com os olhos arregalados de tanta adrenalina… é desviada para o vértice formado entre a trave e o travessão (que tem o nome científico de “forquilha”)… bate e sai… quero dizer, SAAAAAAAAI! pela linha de fundo…
Todos já podem sair da câmera lenta.
Nesse momento da crônica, sinto que talvez tenha de apelar a algum ditado chinês. Penso em algo que possa aplacar a tristeza, o inconformismo e, posteriormente, a ira que o encontro entre as arestas da forquilha abraçada pela lata de óleo (com toda uma história de contribuições às nossas famílias) e a superfície de uma bola dente de leite foi capaz de gerar. Sim, aquilo que fere todo o sentido da existência da bola (fenomenologicamente falando).
– Furou! resmunga alguém atônito…
– …e no primeiro chute! – revoltam-se todos!

Um incidente desses mobiliza toda uma herança histórica e cultural de proporções oceânicas e não demorou muito para que um tsunami começasse a se direcionar rumo ao possível responsável pelo infortúnio. E tudo se resume à solução de um problema bastante complexo para as crianças: quem vai pagar uma bola nova?
É preciso reconstituir os fatos, apresentar as acusações, identificar o dolo, os atenuantes, sensibilizar a opinião pública e não preciso dizer que essa complexa peça de defesa foi feita pelo meu parceiro… se é que me entendem…

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