A vida é um filme

Jovens do Grajaú nunca foram ao cinema

Essa é a realidade de metade dos 40 jovens que estavam em uma quadra esportiva do bairro na última quarta-feira

DA REPORTAGEM LOCAL

O primeiro garoto imagina uma sala fechada com um monte de cadeiras grandes. Para outro garoto, deve ser uma imensa TV grudada na parede. O terceiro compara com espetáculos de magia circense. O último não sabe definir e só repete: “deve ser um lugar bom”.
Eles têm entre 13 e 15 anos e nunca foram ao cinema. Também não conhecem museus. Poucos foram ao teatro ou conhecem a internet. Um dos garotos nunca saiu da zona sul de São Paulo.
“Nem sei nem onde fica a av. Paulista”, diz Jefferson da Silva Siqueira, 13, estudante da 5ª série. Com medo da violência na região do Grajaú, a mãe o proíbe de sair para evitar que volte à noite. “Fico triste por não conhecer esses lugares”, diz.
Na escola estadual, no contato que teve com o computador, só lhe foi permitido fazer desenhos. “Não deixam a gente entrar na internet. O que adiante ficar desenhando?”, questiona Jefferson.
Ele conta que nunca saiu da zona sul de São Paulo. No máximo, foi com a mãe ao terminal rodoviário no distrito vizinho de Santo Amaro, região comercial mais desenvolvida. “Minha mãe tem medo que eu circule pela região”, diz.
De cinema, só ouviu histórias dos poucos colegas que já entraram em uma sala de exibição. “Deve ser um lugar bom”, resume o garoto.
De 40 jovens que jogavam na quadra construída onde era um antigo lixão, quarta-feira à noite, metade nunca foi ao cinema. Também para a maioria, o ginásio erguido por uma ONG, com ajuda da iniciativa privada, é a única alternativa de lazer.
“Saio da escola e vou direto para o projeto”, diz Sara Stefany Soares, 13. O projeto Sol, mantido por uma ONG com ajuda de empresários, atende diariamente 250 crianças e adolescentes na região.
O Grajaú não tem nenhum espaço cultural público, segundo a própria Subprefeitura da Capela do Socorro -responsável pelos distritos de Grajaú, Socorro e Cidade Dutra.
Mas, se faltam aparelhos de lazer e cultura, são muitas as histórias de violência. Jefferson perdeu o tio de 18 anos que costumava levá-lo na garupa da moto para passear pela região. O jovem era motoboy em uma pizzaria. Levou três tiros em uma tentativa de assalto.
Sara lembra do corpo do vizinho, atirado na rua em frente à sua casa, assassinado por engano. O irmão dele, o verdadeiro alvo, foi morto meses depois.
Outros adolescentes narram as mortes de outros jovens, envolvidos com o tráfico de drogas na região.
Um desses jovens, de 19 anos, foi morto no começo do ano porque teria desafiado traficantes locais. A vítima levou dois tiros e os assassinos ainda passaram com a moto em cima dele na tentativa de arrancar-lhe a cabeça.

Abandono
“Está tudo abandonado e as autoridades não fazem nada. Aqui é a maior concentração de pobreza da cidade. Os jovens não têm alternativas de lazer, ficam na rua à mercê do crime”, afirmou o sociólogo Luis Carlos dos Santos, coordenador do projeto Sol e do Movimento Atitude pela Paz.
Santos disse que resolveu investir na prevenção depois que o projeto inicial de tentar resgatar jovens já envolvidos com o crime fracassou. “Perdemos muitos jovens. Descobrimos, então, que a melhor estratégia é a prevenção. É dar educação, cultura, lazer”, afirmou Santos.
O projeto Sol conseguiu transformar um antigo lixão em um ginásio de esportes. “Compramos a área com ajuda de empresários e construímos”, diz o sociólogo.
A obra, ainda não concluída, também prevê salas para teatro e balé. As aulas de dança serão ministradas pela irmã Angela Mary Carey, 68, bailarina que chegou ao Brasil em 1965.
Integrante da Congregação das Irmãs da Santa Cruz, Angela está na região há quase 30 anos e faz parte do projeto Sol.
Ele sempre deu aulas de dança em locais improvisados. “Se ele [Santos] sonhava com o ginásio, eu sonho com a sala de balé”, diz a irmã.
(GILMAR PENTEADO)
Folha de S. Paulo. Caderno Cotidiano
São Paulo, domingo, 02 de dezembro de 2007

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